Corpo, Doce Lar

O que é fisiológico guarda um lugar para o que é prazeroso.

Há uma emergência do corpo em deleitar-se nos próprios processos. Em escorrer-se no alívio. Em inundar-se no prazer.

O corpo saliva por sabores, espreguiça-se, esvazia-se e fareja a sua intrínseca Natureza. O caminho pode não ser fácil, mas chegar lá é como chegar ao doce lar.

Assim é lambuzar a comida preferida, folhear a revista na sanita, cair redondo na cama, despir quem se ama…
É prazeroso pelo simples facto de ser fisiológico.

O mesmo acontece com o parto.
O mesmo acontece com a amamentação.
Espremer o corpo para dar Vida e poder sustê-la – como quem aperta uma laranja, vendo o sumo escorrer pelo braço e lambendo-o para provar.
É tão natural, a forma como a sexualidade acontece. Nao é preciso induzi-la. Pelo contrário, é preciso namorar o tempo de espera e maturação.

Assexuar a expressão do corpo feminino é desvirtuar o doce lar: tirar-lhe o cheiro dos cozinhados, trocar o título dos livros, a cor dos lençóis, a pessoa que se ama. Nada soa a nosso. Nada é reconhecido.

O mesmo acontece com o adentrar do próprio corpo, sentindo a culpa de quem invade uma propriedade alheia.
É preciso reapropriarmo-nos do corpo e torná-lo no nosso doce lar – onde a expressão não reprime o que é fisiológico e, por isso, guarda um lugar para o que é prazeroso.

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