O Propósito do Sonho

Eu não me lembro de ter sonhos. Ou de alguma vez saber o que queria ser.

Eu lembro-me dos medos que não partilhava e dos buracos que não via.
E ainda bem, porque nem sempre é seguro mergulhar sem fundo.

Eu não me lembro do que me levou até lá. Ou de alguma vez saber o que lá se passava. Mas fui.

Fui partilhando os medos e espreitando os buracos.
E ainda bem, porque já me acompanhava de quem mete a máscara e mergulha também.

Toquei nas feridas e fui-me buscar. Fui-me lembrar. Que a ferida aberta é o canal de parto de um sonho.
Uma vez realizado, o sonho nasce e a ferida sara.

O sonho serve, então, para fazer cumprir o propósito de uma ferida – ser um canal de passagem.
Uma vez cuidado, o sonho cresce e a ferida desvanece.

Sim, todo o sonhador é curandeiro.
Todo o sonhador esteve, em algum momento, ferido e aberto ao renascimento. E através da sua dor, deu vida ao seu sonho na Terra. Deu paz às suas emoções. Deu propósito às suas feridas.

Eu não me ocupo de sonhos. Agarro-os, quando caem da árvore, cuja raiz eu cuidei.

Eu não sonhei com esta filha, neste tempo. Eu não sonhei com mulheres ao serviço de mulheres. Eu nunca imaginei estar na linha da frente pelo veganismo ou nos bastidores pelo parto humanizado.

Foram colheitas, de quem sonha com a sua própria cura.
Foram lugares onde me encontrei, quando me fui buscar. E me conheci – ferida e aberta – para viver um sonho.

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