“Odeio Mulheres”

“Tapem-se” para quem amamenta.
“Calem-se” para quem dá à luz.
“Fechem-se” para quem vive num corpo de mulher.

E quem o diz?
Sim, mulheres.

É de mim para ti – o julgamento e a censura.
É entre nós.
Sim, mulheres.

Odeio-nos por isso.
“Odeio mulheres” – disse algures na rua, quando vi o meu espaço adentrado e o meu direito rejeitado.

Uma mulher apareceu repentinamente a tocar na minha filha e a tapar o mamilo que a Jasmim largava pelo sono.
Agiu em prontidão, julgando que lhe iria agradecer por eu não ter reparado que – entre braços, roupa, mãe e bebé – havia um mamilo a cumprimentar os demais.
“Eu sei!” – alertei-a para o facto.
A indignação deu lugar ao que parecia favor.

Um favor é acabar com o ódio ao corpo. Com as expressões vazias e deslocadas daquilo que realmente sentimos.

Eu não odeio mulheres, eu odeio não poder ser mulher.
Eu não quero que a outra desapareça, eu quero que desapareça a sensação de não podermos existir como somos. Tanto ela, como eu.

É sobre um colectivo. Que se espelha e que se pode curar. Quando a visão não mais turvar: o brilho da nossa essência.

Eu peço para te tapares, quando eu não me quero ver. O teu corpo representa o meu e não sei como o viver.
Eu peço para te calares, quando eu não me quero ouvir. O teu grito reflete o meu e não sei onde o exprimir.
Eu peço para te fechares. Não ousares abrir, sentir, tocar ou gostar. O teu prazer ilustra o meu e não sei como o resgatar.

Sim. É entre nós. Mulheres.
Que abandonámos, lá atrás, o sentir e o expressar. O prazer e o bem viver.

O esquecido em mim relembra o esquecido em ti. 

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